REFLEXÕES COMPARTILHADAS PARA A DISCUSSÃO
DAS TAREFAS DA REVOLUÇÃO SOCIAL NO SÉCULO XXI


ÍNDICE DOS CAPÍTULOS

  1. Sobre o conhecimento e interpretação da realidade.
  2. Sobre a ideologia e as ideologias
  3. Sobre o poder e as estruturas de dominação
  4. Sobre a luta de classes e as outras lutas sociais
  5. Sobre o sujeito histórico protagonista e transformador
  6. Sobre a modernidade
  7. Sobre a organização autônoma e todas as formas de luta
  8. Sobre o fim do Estado e a retomada da sociedade livre o sociedade sem classes, também chamada de comunismo, de anarquismo e de outras maneiras.

INTRODUÇÃO

Temos assistido ao fracasso de uma forma de fazer a revolução, isto é, a idéia do Estado e do partido centralizado como instrumentos de poder e ditadura contra a burguesia. Dito Estado não foi capaz de enfrentar o capital no terreno internacional nem na sua própria casa.

A ineficácia das duas formas de fazer estado mostra uma crise geral da dominação, e a necessidade urgente de reconstruir a forma do ser social livre que, encarando e enfrentando todas as formas de exclusão, domínio, existência de classes sociais, etc, se projete na satisfação das suas necessidades rompendo as grades das jaulas.

A revolução existe como processo revolucionário, não como um momento ou um ato, e expressa a modificação essencial do fenômeno que se transforma no dia a dia, minuto a minuto, até chegar a ser outro distinto, sempre em constante inter-relação com os outros fenômenos e coisas que também têm todos seus próprios processos transformadores com diversos ritmos e modalidades.

Como exemplo disso temos o chamado homem de Neanderthal, ainda em discussão, que parece ser que foram vários tipos que vão desde o pré-hominídeo até o ser com as caraterísticas atuais, o hominídeo.

O estabelecimento da propriedade privada também foi um lento e longo processo histórico com avanços e retrocessos, mas cujo surgimento constitui o inicio de um caminho de degradação do ser humano, que tem-se afundado cada vez mais assumindo a forma de uma involução até chegar ao espetáculo vergonhoso da chamada modernidade, que de continuar levará ao fim da humanidade por autodestruição ou pela destruição do planeta.

Este processo de afundamento que começa com a propriedade privada só poderá deter-se quando ela acabe, dando início assim à retomada do caminho de evolução do ser social.

As grandes modificações dos meios de produção têm-se apresentado como revoluções na medida que também obrigaram a modificar as relações técnicas de produção e, na fase histórica da propriedade privada, as formas em que o proprietário prende o resto ao funcionamento desses meios. A dúvida a esclarecer é se, por exemplo, a revolução burguesa, pode ser considerada uma modificação de fundo ou de forma da propriedade privada. Evidentemente não é a propriedade feudal, senão a capitalista, mas continua sendo propriedade privada, com o que parece em princípio que só se modificou a forma.

 

Os indígenas sem muito discurso têm conseguido construir no México e Equador poderosos contingentes libertários espalhados em múltiplos espaços de poder local. Marxistas e anarquistas apoiaram o FZLN, os primeiros imaginando inicialmente que seria uma variante do partido, vanguarda, etc. Os anarquistas têm se visto espelhados nas consignas de mandar obedecendo, horizontalidade de relações, autonomia dos poderes locais, etc.

Ambos estão errados, pois o zapatismo tem tido a virtude de pregar a autonomia a partir da identidade e não seguindo uma ideologia pré-estabelecida, independentemente das severas críticas que também chegam de lado e lado.

Entre marxistas e anarquistas ainda persistem fortes setores estancados na bandeira das idéias, cada um com a sua, e o resto está equivocado, entanto outros de ambas vertentes procuram o diálogo, a atividade conjunta e aprender a reconhecer que o poder popular gera suas próprias idéias. E também surgem outras formas de pensar.

A utopia deve morrer cada noite para renascer no dia seguinte com novas idéias, novas realidades e novas pessoas (até nós mesmos). Portanto o marxismo e o anarquismo (assim como outros ismos) devem assumir-se como idéias ou ideologias transitórias, que se transformam, desenvolvem e morrem como todo. Mas essa transformação, desenvolvimento e morte devem realizar-se no interior do sujeito social, o poder popular, que faz suas ambas ideologias e muitas outras para criar seu próprio pensamento e suas próprias metodologias para reproduzi-lo. Somente nesse caso estaremos frente ao poder popular que apreende, se apossa e modifica seu entorno como sujeito conhecedor e transformador coletivo, não apenas os produtores diretos, no caso os operários ou camponeses, senão a sociedade como um todo, homens, mulheres, jovens, crianças, etc, que entanto vivem transformam e entanto transformam vivem. Organizar os operários para fazer com eles ou fora deles uma ideologia para dirigir e comandar toda a vida social hoje parece sem sentido na mesma proporção em que diminui a força de trabalho ocupada e aumenta a marginalização social.

Dita exclusão, ou como se chame, tem sido aproveitada pela ainda chamada esquerda para pregar a ilusão da inclusão, no emprego, no Estado (com a mal chamada cidadania) e nas regras do jogo. A hora é outra. É a hora de aproveitar que a grande maioria está fora, para refazer o social e não as instituições, reconstruir os grupos humanos e não o pacto social, apropriar-se diretamente das coisas e não fazer mais fileiras, não assumir as posturas clássicas da velha ordem de esquerda, centro ou direita. Essas categorias já não servem, pois se trata de um pequeno grupo de poderosos que domina tecnicamente a população como um todo, e será ela, desde onde foi lançada, desde a margem, que ressurgirá com novas linguagens que devemos incorporar para não mais entender-nos em códigos crípticos de intelectualidade universitária, para assim poder refundir-nos em simbiose amorosa com os pobres, a juventude, as mulheres, os velhos e as crianças.

Se os zapatistas são o resultado de um grupo de intelectuais que se submergem e se desmancham como tais no interior da história e identidade indígena, todos nós, nos mais diversos lugares, devemos também desaparecer e morrer como passado para reiniciar novos caminhos no interior dos negros, dos ciganos, dos indígenas, dos camponeses, dos operários, dos bairros, dos jovens, dos oprimidos e párias da terra, para que cada grupo, cada bairro, cada escola, cada fábrica, cada identidade, cada coletividade, etc, se levante com seu próprio sistema de idéias, com seu próprio projeto generoso onde caibam também todos os demais seres humanos, na forma de comunidades autônomas dos mais diversos tipos, comunidades ferreamente unidas internamente não por um ideal a seguir, senão por uma identidade a projetar em prol da liberdade, da realização plena, do pão, do teto, da moradia, em diálogo fraterno com as outras comunidades que também se levantam contra seus obstáculos. Y ali todas as formas de luta são válidas.

Assim, ao invés de sair de nosso marco social, bairro, fábrica, escola, etc, para buscar formas de ação transformadora gerais ou globais (ou como se chamem) ou somar-nos a certas idéias para achar nossos rumos, ou ler inúmeros livros para apreender a teoria necessária, melhor seria ocupar esses esforços em estreitar laços com os vizinhos, com os colegas, embora não entendam nada de política, e procurar com eles encarar os problemas comuns, criar grupos, galeras, círculos diversos, que nos vejam como mais um, e não como o teórico que prega a revolução e recruta adeptos para tão importante cruzada. Se somos negros, vamos reunir outros negros para reivindicar aos poucos a identidade roubada, a cultura, a história, procurando sua projeção, sua realização, sem esperar a que milhares de negros façam a mesma coisa. Se somos mulheres, igual. Se somos jovens, imigrantes, qualquer coisa. Se somos de um bairro, de um centro de trabalho. Nos desgastamos buscando pessoas que pensem como nós, e se não as há, as fazemos, isso é um erro. O povo deve organizar-se no seu quotidiano, e não por via da ideologia.

As possibilidades de desenvolvimento ideológico próprio dessa comunidade não estarão em discursos, palestras, cursos, etc, senão na prática de grupo, onde devem erradicar-se os velhos métodos de condução hierárquica e autoritária, para assumir formas novas que a vivência e ação irão mostrando como necessárias. Não é possível reunir um grupo para introduzir nele uma ideologia, senão que ele deve desenvolver-se de tal maneira que chegue a ser um sujeito coletivo pensante que interpreta seu mundo para transformá-lo a sua medida. Não pode ser só um sujeito racional, que se comunica apenas com idéias, senão um sujeito social que recupere e pratique o respeito, a afetividade, a solidariedade, a preocupação pelos outros, incluídos os que não participam nas atividades. Há grupos que utilizam a alegoria e o exemplo das comunidades indígenas que quando há uma celebração ou iam caçar ou casar, começam a pintar-se, se tomam das mãos, se abraçam, se tocam, cantam, batucam e dançam juntos, além de outras coisas como representações de atividades de caça ou similares. Em fim, se trata de constituir um grupo humano que quebre as práticas e comportamentos que reproduzem a dominação. Criar senso de grupo, sentimento grupal, identidade e senso de pertença a ele. Sentir-se parte integrante de um coletivo integral, que desde a dispersão da sociedade que nos divide para odiar-nos mutuamente, recomponha os espaços concretos de amor e respeito mutuo, de solidariedade e generosidade, inicialmente de forma restringida para logo, aos poucos convidar outros e ampliar o círculo paralelamente com a reflexão dos problemas do bairro ou do trabalho. É claro que não se trata apenas de convocar com uma festa, mas pode ser um começo. Esses grupos ocupando terras, casas, prédios, levantando barricadas, cortando caminhos, etc, constituem as melhores bases para o poder popular. Também podem estudar sua própria história, afirmar sua identidade, educar jovens e crianças com essa nova visão e aproveitar alguns domingos para reunir-se com famílias e filhos. Importante nas ocupações ou dinâmicas que reúnem o pessoal para trabalhar ou estar juntos, quebrar com as práticas de grupos subordinados às estruturas dominantes, por exemplo, é bom quebrar o individualismo da família fechada acostumando as crianças a reunir-se sob as precauções de diversas mães e pais, de preferência não com pessoas contratadas nem professores, para praticar a reprodução cultural do grupo completo. Tentar lavar roupa juntos, cozinhar juntos, homens fazer tarefas de mulheres, mulheres pegar martelo e pregos.

Dessa forma deixa de ser um grupo unido pela ideologia e passa a desenvolver outros laços que unificam as vidas fazendo coletivos reais, objetivos e não subjetivos, que de começo se tratava de uma luta, ou de uma reivindicação, para aos poucos passar a ser um sujeito muito mais pleno, muito mais abrangente.

Para essas pessoas e para esses grupos vão dirigidas estas reflexões.


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