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REFLEXÕES COMPARTILHADAS PARA A
DISCUSSÃO
DAS TAREFAS DA REVOLUÇÃO SOCIAL NO
SÉCULO XXI
TEMA PRIMEIRO:
SOBRE AS FORMAS DE CONHECER E INTERPRETAR A REALIDADE
Na teoria do conhecimento se opera tradicionalmente por via abstrata o que se chama relação dialética entre o ser e a consciência. Dizemos abstrata porque não visualiza a consciência no ser pensante, senão no indivíduo pensante, em que se nos explicam os mecanismos dos sentidos, os olhos eu ouvidos, a circulação dos impulsos pelo sistema nervoso, as reações no cérebro, etc, de este sujeito, deste outro, e assim por diante.
O conhecimento como função ou ação do sujeito (o melhor dito como relação do ser e a consciência) , levado ao terreno abstrato pode ser perigoso, pois existem dois tipos diferentes de sujeito a ser estudado e, portanto, dois sujeitos que estudam: o sujeito social existente antes da divisão da sociedade, e o sujeito separado surgido posteriormente. Fazer abstração do sujeito social para concentrar o estudo num indivíduo isolado, imaginando que com isso se refletem e se estudam os outros, e por tanto o conjunto, significa legitimar a priori a existência do sujeito isolado que fará a pesquisa, justificar seu próprio isolamento.
Entre indivíduos separados ou isolados não há relação ou comunicação. E para colocar todos eles em disposição de satisfazer as necessidades dos poderosos, se estabelecem e reproduzem modalidades externas ou convencionais de relações e comunicações, em que ambas se entrelaçam sendo a relação a base do ser social e a comunicação a base da materialização do pensamento que permite a consciência. A comunicação é um tipo de relação, por isso entra a formar parte também da base intrínseca do ser social.
Os primeiros seres pensantes, apenas elaboravam a compreensão muito limitada de alguns fenômenos, a que se ampliava rapidamente no entrelaçamento dessas experiências e sensações na vivência social direta e afetiva junto ao desenvolvimento do sistema nervoso na forma mais avançada até agora que é o cérebro. A linguagem rudimentar permitia transformar esses estímulos mentais em toques de ondas de ar no tímpano dos outros como o toque das antenas entre as formigas, fazendo que a identificação de conceitos e a compreensão das relações entre as coisas, assumisse formas objetivas reconhecíveis e comuns a todos. Assim, da interação do pensamento nasce a consciência como auto-compreensão do ser social, portanto do ser, ou seja é a natureza que toma consciência de si própria. Esse processo deve ter sido durante milhões de anos e foi interrompido alguns anos atrás (muito pouco em comparação com o tempo da vida do ser humano no planeta) pela apropriação privada do excedente produzido e todo indica que dentro de pouco tempo voltaremos a retomá-lo.
Conhecer é saber, entender, ver o que há, tomar consciência, mas também é tomar posição e agir sobre as coisas e as pessoas, assim como sobre si próprio. É impossível separar ambos componentes do ser social, e a sua divisão para efeitos de análise tem servido apenas para legitimar sua desagregação.
Nas primeiras comunidades comunistas ou anarquistas, isto é, livres, sem classes, sem dominação, sem estados nem governos, senão apenas com a fraternidade e solidariedade de todos com todos, o saber formava parte do fazer. Todos faziam sabendo e sabiam fazendo, e todos juntos decidiam o que fazer e como faze-lo. E assim todos se faziam e todos se sabiam, eram construtores e conhecedores de si próprios, dos outros e do mundo que lhes rodeava.
Logo, com a sociedade dividida entre dominantes e dominados, isso acabou, já não era possível que os poucos poderosos compartilhassem a vida, a luta e o saber com os dominados. O saber como arte ou dinâmica (conhecer), junto aos seus resultados, se transformou em patrimônio de uma elite.
Dessa maneira, os trabalhadores, as mulheres e os jovens, apenas desenvolviam as atividades determinadas pelos machos poderosos sem poder pensar, decidir, comunicar-se entre eles nem nada parecido. A razão e a vontade, junto com a espiritualidade, são expurgadas da vida das camadas subordinadas e usurpadas para depositar-se na vontade soberana dos senhores. Seus desejos e necessidades eram -são- ordens, e ditas ordens configuram um estado de coisas que se chamou dessa forma, a ordem. Nasce a ordem social.
Muitos pensadores passados e atuais analisam a história da humanidade dentro desta ordem, embora criticando-lha, sem perceber que a contestação, a rebelião, não necessariamente significavam uma crítica a dita situação, senão que eram a reivindicação da desordem, a reconquista da liberdade, o quebre das estruturas, e não sua substituição por uma outra. Por isso o saber crítico que prega a utilização da ordem dada ou seu relevo por uma outra forma de organização social, não consegue abrir asas.
Nossa abordagem da história e formas do saber-fazer e do fazer-saber considera especialmente os espaços libertários construídos constantemente pelos oprimidos, que sempre quando conseguiam a liberdade era para cair em outra armadilha, outra gaiola, uma nova ordem. E os que não o faziam, eram simplesmente aniquilados, em nome da paz social, a paz da injustiça.
Nos limitados espaços das elites eram elaboradas as formas convencionais que dariam forma a dita ordem. No começo era o encontro dos patriarcas, a reunião dos senis, o senex, de onde vem o nome de senado, até as formas democráticas iniciais, em que o demos, o povo, estava constituído pelos que tinham certa quantidade de terras e de escravos, eram machos e maiores de idade. O estudo dessas formas de dominar até hoje e sua grande admiração mostra a vontade dos pensadores atuais de centrar sua atenção apenas nos espaços elitistas. O estudo da história, embora também o estudo crítico baseado no desenvolvimento das forças produtivas, realizado na base da análise dos estados e governantes, tem destacado demais estes aspetos, descuidando o papel dos oprimidos não apenas na luta contra o sistema de opressão, senão também, e especialmente, na sua luta pela liberdade, assim como pela vivência do seu saber. A falta de propostas de organização social dos oprimidos tem sido interpretada como fator negativo, que não permitia a luta com resultados concretos, e assim, ao invés de multiplicar a revolta, a sublevação, se organizava as pessoas para a nova ordem, com o que as massas eram facilmente absorvidas e integradas. O projeto racionalista liberal tinha todos esses componentes, devido a que seu objetivo era instalar os camponeses libertos nas suas oficinas, ateliers e nascentes fábricas. O marxismo, quando perdeu seu caráter libertário, assumindo a finalidade de constituir um novo estado, isto é, uma nova ordem, perdeu também sua eficácia. A derrota da Comuna de Paris serviu de argumentação para impor a necessidade do Estado para reunir organizadamente os trabalhadores em prol de um segundo objetivo, sem prever que a reprodução das estruturas reproduziria também os comportamentos, por mais que se trabalhasse o fator subjetivo de forma insistente.
Assim as estruturas que agem no quotidiano não podem ser modificadas reforçando-lhas, muito pelo contrário, devem ser negadas na prática diária dos grupos sociais.
A família, a escola, a universidade, os exércitos e demais aparatos armados, as fábricas, os partidos, igrejas, Estado, associações, sindicatos, etc, reproduzem ditas estruturas de organização e funcionamento vertical, autoritário, de comando desde cima, com maiores ou menores máscaras para disfarçar seu caráter de órgão de poder e de reprodução de comportamentos subordinados dentro de uma micro e macro ordem.
Estando o saber concentrado nas áreas de comando é reconhecido que o saber reforça o poder, o que explica em grande parte a separação das esferas do conhecimento nas escolas e universidades, instrumentos de reprodução cultural dominante, por exemplo entre a geografia e a história, em que na primeira aprendemos o passo mecânico de um momento a outro e na segunda a análise é horizontal, sendo na realidade ambas uma coisa só, que nunca são trabalhadas de conjunto. A mesma coisa acontece com a física e a química, ou entre a química e a biologia, ou as chamadas ciências abstratas, etc. A especialização do saber se corresponde com as necessidades da dominação, de impedir a visão global ou geral das coisas, sem as necessárias sínteses que interpretariam a realidade com maior rigor.
O saber é ilimitado, infinito, cresce e pode crescer mais ainda, mais é necessário evitar essa sede de conhecer colocando barreiras, tais como por exemplo nas formas descritivas-positivistas, estruturalistas, dogmáticas, paradigmáticas, etc. de apresentar as coisas.
Então a apropriação do saber pelo poder resulta ser uma necessidade da dominação. No Egito os sacerdotes eram os depositários do saber que era mantido e reproduzido em segredo só para os iniciados, e era muito bem utilizado, por exemplo a astronomia já permitia prever as eclipses de sol, com o que reunindo o povo mostravam seu poder mandando o sol esconder-se.
Na Idade Média, o saber e as primeiras universidades eram para uns poucos privilegiados. Os livros, papiros e objetos roubados a outras civilizações se escondiam em compartimentos segredos nas abadias e palácios. Quem sabia muito ou pensava diferente era torturado e queimado na fogueira por ordem divina. Na época moderna, a grande empresa, os exércitos e os países poderosos absorvem o principal saber, e como corolário disso temos a conquista do espaço ou o plano de defesa anti-míseis chamado de guerra das galáxias. A internet foi instrumento exclusivo das forças armadas durante muitos anos, até que inventaram como controlar as mensagens que circulam nela.
Mas paralelamente com tudo isso, também se dava a luta pela liberdade, espaços onde se pensava diferente. Os primeiros patriarcas enfrentaram rebeliões de escravos, de mulheres e de jovens, que praticavam e desenvolviam outros sistemas de valores, geralmente sem estruturas nem reprodução dos mesmos comportamentos que rejeitavam. Tanto foi assim que as estruturas religiosas deviam legitimar o castigo ao saber, inventando que os pecados do mundo provêm da ruptura da proibição de comer o fruto da árvore do saber, e por querer saber, foram castigados. A vontade de saber e de ser livres se chama demônio, representado por uma figura sinistra que oferece o fruto da árvore proibida. Comunidades alternativas são destruídas pelo fogo celestial, como Sodoma e Gomorra, o pelo exército dos machos como em Lesbos. Exércitos de mulheres libertárias, chamadas Amazonas, combatem os machos e jovens renegam dos seus pais.
No Egito, os marginalizados que tinham por nome Hapirus, eram libertários que pregavam a destruição do sistema e se negavam a configurar utopicamente qualquer outra sociedade. Os mosaicos, seguidores de Moisés inicialmente pregavam abandonar Egito sim programa, simplesmente para fazer um grande quilombo, um grande reduto libertário. Fugiram e os Hapirus não tiveram mais alternativa que ir com eles, pois o movimento estava já fracionado. No caminho, Moisés abandonou a caravana para ir até o centro dos adoradores de um outro Deus, no Sinaí. Na sua ausência os Hapirus tentaram e conseguiram convencer o resto das suas idéias mais contestatárias e libertárias de não aceitar uma nova ordem, que já era a idéia de Moisés. Com o programa sionista dos adoradores de Jeová na mão, Moisés retorna com maiores argumentos e encarando os hapirus os acusa de heresia e de seguidores de ídolos falsos, conseguindo manter sua liderança sem poder acabar totalmente com as idéias libertárias. Dessa forma, ao invés de encontrar um lugar adequado e espalhar o sentimento libertário, se impõe a idéia de Moisés de acabar com as comunidades de Palestina, o que produz uma rara mistura de sociedade libertária durante 200 anos em territórios onde foi aniquilada parte importante dos habitantes originários ou nativos que continuaram posteriormente a resistência para expulsar o invasor. A justificativa ideológica era que se tratava de uma terra prometida aos escolhidos de um deus, Sion. O sonho do poder só consegue estabelecer-se por via da monarquia de Saul sob o pretexto dos ataques que sofriam por parte dos remanescentes dos antigos moradores da região que mantinham também o sonho de recuperar a terra dos seus ancestrais.
Há muito para estudar ainda dessa época e lugar, especialmente o Deuteronômio, conjunto de regras que foi transformado posteriormente em nome de um livro religioso. O saber livre era mediatizado pelas formas ideológicas religiosas, que permitiam manter e reproduzir estruturas que ao tempo se viraram em contra os próprios membros do quilombo de Israel. As modalidades libertárias se verificavam por exemplo na prática de esconder escravos fugidos de outras regiões e de integrá-los aos grupos ou nascentes famílias patriarcais com plenos direitos, também no respeito entre os grupos e a fraternidade de realizar atividades conjuntas. Posteriormente esses escravos que chegavam eram destinados exclusivamente a tarefas domésticas subordinadas, perdendo a categoria inicial de igualitarismo. O patriarcado aos poucos abandona seu caráter bucólico e idílico incorporando severa repressão às mulheres e filhos não primogênitos. Se impõe finalmente o plano Mosaico e a sociedade libertária é derrotada.
Na Idade Média os camponeses realizaram grandiosas revoltas contra as estruturas da nobreza. Alguns grupos se escondiam em bosques para constituir sociedades alternativas, onde a terra e os produtos eram comuns, e desde onde atacavam as casas e fortalezas dos senhores, emboscavam suas caravanas, expropriavam e repartiam suas pertenças entre os pobres. Famosa é a história de Robin Hood, nos bosques de Sherwood, na Terra dos Anglos (Ingland), Inglaterra, que tem sido adaptada para gosto do sistema mostrando que se tratava apenas de uma revolta contra o rei ruim até o retorno do rei bom, como quem diria hoje tirar os capitalistas do estado para colocar os socialistas. Outras histórias e lendas na Europa e outros lugares (feudalismo na China, por exemplo), mostram que ditas comunidades alternativas, autônomas e libertárias se multiplicavam por todas partes. Os valores predominantes eram a grande solidariedade e senso de grupo e identidade que se desenvolvia nestes redutos. Também os bucaneiros, a diferença dos piratas e mais ainda dos mercenários chamados corsários, estabeleciam numerosas comunidades onde a propriedade da terra e das coisas era comum. Normalmente eram camponeses, escravos e/ou marinheiros que fugiam e se unificavam para dirigir-se a alguma ilha ou região ainda não controlada pelos poderosos. E desde ai organizavam ataques a portos e cidades além de abordar barcos comerciais e de guerra, com os que se travavam encarniçados combates. O botim era repartido igualitariamente ou também levado a regiões empobrecidas. Poucos autores tem trabalhado estas lutas onde as informações, o saber e sua transmissão para os filhos era constante e de caráter comunitário, não existindo escolas nem professores. As mulheres também lutavam e faziam atividades conjuntas para a alimentação da coletividade. A agricultura se desenvolvia também de forma grupal e se compartilhava o produto. Interessante é constatar que não permaneciam quando verificavam a presença de comunidades nativas, a diferença dos que se ligavam ao mercado y se dedicavam a caçar seres humanos para vende-los como escravos. Muito possivelmente surgiram também comunidades conjuntas ou mistas com moradores originários.
As lutas mais atuais mostram também a procura da liberdade, mais que a intenção de fazer uma outra ordem social. Mas isso será trabalhado aos poucos no texto.
O importante neste capítulo é destacar que o saber e o conhecimento como forma de adquirir saber, foi homogeneizado pelas classes dominantes quando esta praga apareceu, mas sempre existiu também junto à luta libertária a resistência cultural ligada à ruptura radical com as estruturas, onde o saber retoma seu caráter social e sua profunda ligação com o fazer. Estas experiências só conseguiram ser arrebentadas a sangue e fogo, igual que aqueles que perderam a felicidade prometida por querer comer da árvore do saber, ou pela insistência em manter as formas estruturais do passado, como aconteceu em Israel Antigo, União Soviética e muitos outros lugares.
Assim vemos dois saberes em constante pugna: O saber dominante, cujos conteúdos e metodologias assumem determinadas caraterísticas, e o saber libertário, que assume outras.
Ambos saberes ou formas de conhecer têm formas, conteúdos e metodologias distintas, ligadas obviamente às respectivas modalidades de relacionamento, fazeres, interesses, etc. Dentro das metodologias temos quatro fundamentais: como adquirir o conhecimento, como guardá-lo, como transmiti-lo e como aplicá-lo.
Vejamos algumas diferenças:
Assim as escolas e universidades reproduzem todos os elementos da estrutura e práticas do sistema de dominação e as formas e conteúdos do saber dominante, até a crítica do sistema convenientemente marginalizada. Ou seja, se aprisiona e modela o comportamento entanto o saber se encarrega de introduzir os valores e desinformações necessárias. Tampouco o sistema se assusta com os críticos, pois entanto se conservem as estruturas que garantem os comportamentos, todo segue igual.
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